topico Abaixo de Zero Por Mariana Viktor

Ensino da matemática vive crise sem precedentes, preocupa autoridades e une especialistas na busca de soluções

 

A tabela de classificação da União Internacional de Matemática nos coloca ao lado de parceiros respeitáveis como Bélgica, Espanha, Israel, e os pesquisadores brasileiros na ciência dos números estão entre os melhores do mundo. O brasileiríssimo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), criado em 1952 pelo CNPq, é considerado centro internacional de excelência em pós-doutorado pela Third World Academy of Science (TWAS) e foi sede da União Internacional de 1990 a 1998 – o que ocorreu pela primeira vez fora da Europa Ocidental e América do Norte.
Para não falar só em gente com diploma na parede, quase 100 mil alunos participaram em 2002 da Olimpíada Brasileira de Matemática, organizada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) com apoio do Ministério da Cultura e Tecnologia. O Brasil inscreveu seis estudantes de ensino médio na última Olimpíada Mundial de Matemática e eles voltaram com quatro medalhas de bronze e duas de prata – que se somaram às conquistadas em edições anteriores, entre as quais várias de ouro. Não dá gosto viver num país que valoriza tanto um dos mais estratégicos ramos do saber científico? A resposta seria um maiúsculo sim, se esse país não fosse o poço de contradições sociais, econômicas e (no caso) educacionais que é o Brasil.
Na ante-sala dessas louváveis conquistas pontuais se avoluma uma crise sem paralelo na história do nosso ensino: a da educação matemática. “A formação dos novos professores de matemática é catastrófica”, afirma Elizabeth Belfort, coordenadora do curso de licenciatura em matemática da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Para que se tenha uma idéia, a média dos formandos em matemática no Provão realizado no fim do curso de licenciatura é 1,2 – o pior resultado entre todas as carreiras. E o mais grave é que 70% das questões de múltipla escolha abordam conteúdos do ensino médio. Estamos entregando diploma a quem não sabe o mínimo para ensinar”, completa Elizabeth, que é mestra em matemática e fez doutorado em educação matemática na Inglaterra.
Diante do quadro, basta somar um mais um para concluir que professores despreparados vão ensinar alunos despreparados, que serão professores ainda mais despreparados. Se quem ensina não sabe o que deve ensinar, o que esperar de quem aprende?

 

Desempenho – No final de 2000, a imprensa divulgou o resultado da participação brasileira no Project for International Student Assessment (Pisa) – prova elaborada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) que avaliou o desempenho de estudantes na faixa dos 15 anos em 32 países. O Pisa testou a performance dos alunos em matemática, ciências e leitura, e o Brasil obteve o pior resultado em todas as provas, bem atrás do penúltimo colocado, o México. A matemática ficou com a lanterna. “Enquanto a média internacional foi de 500 pontos, nossos estudantes alcançaram 396 em leitura, 375 em ciências e 334 na prova de matemática, onde não só tivemos a média mais baixa, como tambeem tiramos o último lugar em todos os quesitos”, lembra Luiz Carlos Guimarães, professor do Departamento de Matemática Aplicada da UFRJ.
De acordo com os avaliadores do Pisa, alunos com resultado de até 400 pontos conseguem elaborar apenas uma etapa simples do raciocínio matemático, associando fatos básicos. Pois cerca de 75% dos nossos estudantes não atingiram 400 pontos e 95% deles ficaram abaixo de 500. Além de 600 pontos estariam os jovens capazes de um raciocínio mais elaborado e de dedicar-se, mais tarde, a carreiras técnicas – engenharia, física, computação etc. Todos os países tiveram algum percentual nessa faixa, menos o Brasil. “Nenhum dos nossos alunos atingiu 600 pontos, o que significa que nossas escolas formam estudantes incapazes de ocupar vagas nos empregos especializados de nível médio. Em comparação, a Coréia – um dos países mais bem colocados – teve 75% de seus estudantes com notas acima de 500 pontos e 27% deles superaram os 600”, completa Guimarães.
Os bons resultados obtidos por jovens de muitos países na prova do Pisa servem para derrubar um mito: o de que a matemática é, invariavelmente, a vilã entre as matérias. O conceito negativo que muita gente tem dela não é gratuito nem vem do berço, mas deve-se em grande parte a uma didática desinteressante, incapaz de prender a atenção do aluno e de levá-lo a pensar matematicamente. Um estudo realizado com alunos brasileiros e ingleses de 9 a 13 anos, de ambos os sexos, revelou que existe uma equivalência entre os alunos que detestam a matemática e os que a consideram a sua disciplina preferida. Segundo Jane Correa, coordenadora da pesquisa no Brasil, a opinião dos estudantes varia de acordo com as experiências didático-pedagógicas que eles têm ao longo das respectivas séries e com a forma como os conteúdos lhes são apresentados.

 

azero01Aversão – “No jardim de infância e na primeira série, 70% das crianças preferem a matemática, porque nessa faixa etária e nível de escolaridade, a matéria é uma brincadeira e não exige memorização”, garante Ângela Rocha dos Santos, diretora do Instituto de Matemática da UFRJ. “Depois, devido à forma como ensinamos, o gosto inicial se perde e fica a aversão pelo sistema formal e dedutivo da disciplina.” Segundo Ângela, a matemática ainda é ensinada hoje como no século XVII. É preciso mudar a forma de apresentar os conteúdos ao aluno, mostrando a matemática como uma ciência de descoberta prazerosa. “Há alguns movimentos, especialmente entre quem lida com educação matemática, no sentido de tornar a matéria mais próxima do aluno, mas ainda são iniciativas isoladas.”
Uma das grandes dificuldades em despertar o gosto de crianças e jovens pela ciência dos números é a ênfase atribuída à natureza abstrata do conhecimento matemático. Nos livros e aulas, matemática aparece como um sistema tão hermético que termina por inibir a criatividade do aluno, gerando nele uma série de crenças negativas. São freqüentes generalizações do tipo “matemática só serve para passar no vestibular” (quando ela estimula decisivamente o raciocínio), “ler e escrever não têm nada a ver com matemática” (quando leitura é fundamental para interpretar a teoria matemática), “matemática é coisa para gênio” (quando qualquer um pode compreendê-la, familiarizando-se com suas regras) ou “a matemática lida com fórmulas que não se relacionam com a vida” (quando ela é usada em “n” situações cotidianas, da interpretação de uma tabela de juros à elaboração de um orçamento).
Apesar de não expressos diretamente, esses mitos viram verdades na cabeça das crianças e enraízam-se com o passar do tempo. Uma pesquisa publicada recentemente nos EUA revelou que os alunos das séries iniciais conseguem resolver questões – não de conhecimento específico, mas de raciocínio lógico – propostas para duas ou três séries adiante, enquanto os alunos mais adiantados não solucionam nem os problemas de seu nível. A conclusão do estudo foi de que a escola termina por inibir a criatividade e embotar o raciocínio dos estudantes. Só que lá, diferentemente do que acontece aqui, o ensino da matemática é reconhecido como estratégico. Em 1995, depois do insucesso dos alunos americanos em outro exame internacional – o TIMMS –, o presidente Bill Clinton não teve dúvidas: foi à TV, em cadeia nacional, para anunciar providências.
Na década de 70, tentou-se inovar o ensino matemático no Brasil com a introdução da chamada matemática moderna. Em vez de utilizar-se números nas operações, elas eram visualizadas poe meio de conjuntos – os meses do ano, as vogais, os alunos corintianos da classe. Não deu certo. “Os professores não foram preparados e a teoria tornou-se um item utópico jogado no programa”, destaca Ângela. “Conjunto era um desenho num livro, correspondência eram setas traçadas entre conjuntos, união era juntar bolinhas…”.
Especialistas garantem que existe solução, mas ela não é nem fácil, nem rápida, nem barata. “Além de tornar a didática mais interessante, é preciso melhorar a formação dos professores”, resume Leônidas de Oliveira Brandão, professor do Departamento de Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP.

 

Qualificaçãoazero02 O governo tem tomado iniciativas no sentido de enfrentar o desafio, como a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) – que estabelece um percentual de doutores e mestres nas universidades, visando à qualificação de futuros professores – e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), pelos quais se tenta estimular a interdisciplinaridade e valorizar mais o raciocínio do aluno do que sua habilidade em manipular fórmulas. As medidas adotadas, porém, ainda são insuficientes.
“De que adianta o MEC impor novos parâmetros curriculares se o professor não tem qualificação?”, pergunta Ângela, da UFRJ. “É preciso formar mais e melhor os professores, dar-lhes tempo para assimilar novos métodos didáticos e pagar-lhes bons salários. Por que alguém vai estudar matemática por quatro anos para ganhar R$ 600, se pode formar-se em informática e faturar muito mais?”
Maria Laura Mouzinho Leite Lopes, professora emérita da mesma universidade, assina embaixo: “É fundamental preparar melhor os professores – assim eles terão prazer em ensinar e despertarão prazer em seus alunos –, mas é um trabalho difícil, porque o salário é baixo, o reconhecimento social é pequeno e a perspectiva de desenvolvimento pessoal, limitada”. Maria Laura também coordena, na UFRJ, o setor de Matemática do Fundão – projeto que visa melhorar o ensino de ciências e matemática no país e que foi iniciado em 1981, com um programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
“A matemática precisa de um projeto nacional de longo prazo”, afirma Sueli Druck, presidente da SBM e professora da Universidade Federal Fluminense. “Com um plano institucionalizado nesses moldes, em dez anos o ensino da matemática avançaria muito no país.”
Uma sinalização positiva é que o problema do ensino de matemática, de tão sério, chamou a atenção das autoridades e dos pesquisadores, unindo-os na busca de alternativas. Uma iniciativa alentadora foi o congresso realizado este ano, no Rio de Janeiro, com o apoio da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), sobre o uso de história e tecnologia no ensino da matemática, onde mereceu destaque o uso do computador como instrumento de aprendizagem, inclusive para o professor, incluindo as técnicas de ensino a distância.
Em outubro, acontecerá, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a I Bienal da Matemática, promovida pela SBM, em que estão previstas atividades para alunos desde o ensino médio, com ênfase na formação do professor.
Todo esforço no sentido de buscar uma saída é bem-vindo. Nos países desenvolvidos, o governo e o meio acadêmico, com o aval da sociedade, investem bilhões de dólares em projetos de ensino de matemática e de ciências, exatamente porque sabem que o conforto, a democracia e a segurança de um povo ligam-se ao know-how científico. Como adverte Sueli Druck: “No Brasil, temos uma grande massa de analfabetos numéricos, pessoas que não entendem os rudimentos da matemática e nem o próprio cotidiano. A situação é grave, porque o desafio do futuro é o do conhecimento tecnológico – não adianta vender café e banana.” * Texto extraído da Revista Educação – Edição nº 65